Chama-se Seed Studios, é portuguesa e prepara-se para lançar um jogo para a PlayStation 3, depois de já ter trabalhado para a Nintendo
Na Seed Studios, quando o chefe chega toda a gente fecha apressadamente os “e-mails” e as tabelas de Excel e agarra-se aos videojogos. António Gonçalves, o director-geral da empresa portuense, faz questão que os colaboradores joguem. Faz parte do trabalho diário de pesquisa.
Em plena zona histórica da Ribeira do Porto está a nascer “Under Siege”, o primeiro jogo feito por uma empresa portuguesa para a consola PlayStation 3, da Sony.
Fruto do trabalho desenvolvido, ao longo dos últimos dois anos e meio, por uma jovem equipa com cerca de 20 pessoas, “Under Siege” é um jogo de estratégia em tempo real vocacionado para o jogo em “multiplayer” através da Internet
Vai estar à venda a partir de Outubro na loja “online” PlayStation Network – uma espécie de iTunes em que os utilizadores podem descarregar directamente os jogos para a PlayStation.

Com os pés bem assentes na terra
Ganhar espaço na indústria global de videojogos, dominada por americanos e japoneses, não é tarefa fácil. A semente que deu origem à Seed Studios foi lançada em 2006 pela LT Studios, uma empresa nortenha que trabalha com desenho em 3D e vídeo.
Os três funcionários da nova divisão de Investigação e Desenvolvimento (R&D) já se conheciam dos tempos de faculdade. Nessa altura, tinham já desenvolvido projectos amadores na área dos videojogos, nos quais trabalhavam aos fins-de-semana e nas férias.
No início, “era importante manter os pés assentes no chão e dedicarmo-nos a projectos curtos e simples que pudessem ser terminados e rendibilizados rapidamente”, explica António Gonçalves, director-geral da empresa.
Os primeiros projectos foram encomendados por uma empresa nacional, a Gamelnvest. “Sudoku For Kids” foi lançado para o PC e posteriormente adaptado para a Nintendo DS. Seguiram-se “Toy Shop” e “Aquatic Tales”, também pequenos jogos direccionados para o público infanto-juvenil.
“Foram pequenos projectos que, além de uma facturação rápida, nos deram um ‘know-how’ e um primeiro contacto com esta indústria”, assinala o responsável.
O sucesso dos primeiros jogos deu-lhes coragem para ir bater à porta da Sony com uma proposta para um jogo de estratégia, o “Under Siege”. “Sentimos que estávamos preparados para dar o passo”, afirma António Gonçalves.
Concorrência, procura-se
“A maioria das empresas adoraria não ter concorrência. Mas, no nosso caso, seria fantástico termos empresas nacionais com quem competir”, atira o responsável Não ter um mercado minimamente amadurecido significa, por exemplo, não haver universidades a fazer formação nesta área.
Para já, além da formação no estrangeiro, as empresas do sector continuam a ter que preencher as fileiras com autodidactas e com pessoas de outras áreas como o “design” e a programação que queiram “dar o salto”, explica o responsável.
A “falta de massa crítica” é também um obstáculo na obtenção de financiamento. Os 1,2 milhões de euros que envolveu a produção de “Under Siege” foram obtidos através de um apoio do IAPMEI e de financiamento por parte de um conjunto de bancos nacionais, além de fundos da própria empresa.
O sucesso do “Under Siege” pode levar a empresa par um novo patamar. O objectivo oficial é chegar às 100 mil cópias vendidas. “Mas entre 100 mil e um milhão, tudo é possível”, diz António Gonçalves.
Os obstáculos
Inexistência de uma indústria nacional
A fase embrionária em que a indústria dos videojogos se encontra em Portugal reflecte-se, desde logo, na dificuldade em recrutar novos talentos, “porque não se ensina a fazer videojogos em Portugal”.
Por outro lado, a falta de um verdadeiro mercado no nosso país e de várias empresas concorrentes complica a obtenção de financiamento.
Este é um negócio que foge aos moldes tradicionais, o que do ponto de vista do investidor dificulta a avaliação do risco e dos possíveis retornos. “Como se faz uma análise financeira para três ou cinco anos? Não é assim que esta indústria funciona. É tudo muito mais rápido”, explica António Gonçalves.
As soluções
Gestão cuidadosa dos recursos
Estas limitações obrigam a uma cuidadosa gestão dos recursos e dos orçamentos disponíveis. “Há que manter os pés bem assentes na terra e não embarcar logo em projectos megalómanos”, alerta o director-geral da Seed Studios. Depois de alguns projectos encomendados, há pouco mais de dois anos a empresa sentiu a segurança (ao nível financeiro e dos conhecimentos) para embarcar num projecto próprio de grande envergadura: o “Under Siege”, para a Playstation 3.
“É importante haver uma humildade que nos obrigue a lutar pelo nosso espaço, mas também tem que existir uma grande ambição e certeza de que somos capazes”, considera o responsável.
A concretização
Inovação pode ser a chave
Para encontrar espaço numa indústria polarizada nos EUA e na Ásia, a criação de produtos inovadores foi a resposta encontrada pela Seed Studios. Neste caso, o jogo “Under Siege” pertence a um subgénero ao qual os jogadores associam habitualmente o teclado e o rato da plataforma PC, os “Real Time Strategv (RTS)”. O desafio foi criar um jogo controlável com os comandos da PS3.
O sucesso de “Under Siege” poderá dar outra escala à Seed Studios, com o alargamento da equipa. Será também uma forma para que “estudantes, investidores e o mercado levem a sério esta indústria em Portugal”, diz António Gonçalves.
2010-08-19 10:47
Edgar Caetano, Jornal de Negócios